Arruda Bastos: Serraglio e o Touro Sentado da Carne Fraca

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20 de março de 2017
Por Arruda Bastos

Na última semana, deparamo-nos com mais uma operação da Polícia Federal, agora envolvendo grandes empresas do ramo frigorífico, servidores do Ministério da Agricultura e até políticos, como é o caso do Ministro da Justiça e Deputado Federal Osmar Serraglio, flagrado em grampo telefônico suspeito com o considerado chefe do esquema de corrupção da denominada Operação Carne Fraca.

As denúncias são de extrema gravidade e vão desde a venda de carne vencida, utilização de cabeça de porco, papelão e outras barbaridades para encher linguiças e embutidos, liberação de produtos contaminados com bactérias e diversos outros crimes contra a saúde pública. As denúncias já embrulharam meu estômago e fizeram de imediato me transformar em vegetariano/vegano.

Aqui, aproveito para explicar que enquanto o vegetarianismo pode ser adotado por razões diversas, como a questão ética, saúde e religião, o veganismo tem como cerne e foco principal a questão ética, de luta pela libertação e não exploração animal. Com a operação, passei a defender e adotar as duas condutas e motivações.

Minha crônica de hoje vai tratar do papo telefônico do Ministro da Justiça flagrado na operação, fato grave e minimizado pelo governo ilegítimo. Inicio fazendo referência ao grande Touro Sentado que foi um chefe da tribo dos Sioux que viveu de 1831 a 1890 nos Estados Unidos. Ele lutou para evitar que os colonizadores tomassem suas terras. Ficou famoso pelo seu papel na batalha de Little Bighorn, na qual derrotou os soldados comandados pelo tenente-coronel George Armstrong. Era verdadeiramente um grande chefe.

Meus leitores devem estar pensando que eu comi uma das carnes contaminadas e estou delirando. Tranquilizo que agora estou bem, mas durante muito tempo coloquei a culpa na cerveja por passar mal depois de um churrasco. Ressuscitei a história do Touro Sentado para fazer referência à transcrição do telefonema de Serraglio para o Superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, Daniel Gonçalves, que transcrevo abaixo:

– Osmar Serraglio: Grande chefe, tudo bom?
– Daniel Gonçalves: Tudo bom.
– Osmar Serraglio: Viu, tá tendo um problema lá em Iporã, cê tá sabendo?
– Daniel Gonçalves: Não.
– Osmar Serraglio: O cara lá, que… O cara que tá fiscalizando lá… Apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico… Botô a boca… Deixou o Paulo apavorado! Mas pra fechar tem o rito, num tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?
– Daniel Gonçalves: Deixa eu ver o que acontecendo… Tomar pé da situação lá, tá… Falo com o Senhor (…)

Um dos personagens é Daniel Gonçalves, que de 2007 a 2016, comandou a Superintendência do Ministério da Agricultura no Paraná. Ele recebeu ordem de prisão sob a acusação de ser ”o líder da organização criminosa” que, em troca de propinas, fechava os olhos para o comércio de carne imprópria para o consumo humano. Paulo Rogério, o empresário que Serraglio socorreu, é proprietário do frigorífico Larissa e também foi preso. A ligação é altamente comprometedora.

No caso da operação da PF, Serraglio e o grande chefe Touro Sentado da Carne Fraca confirmam o que diz o provérbio popular: “a carne é fraca” e também a letra da música de mesmo título de Jorge e Mateus “A carne é fraca, o coração é vagabundo”. Só nos resta agora apelar finalmente para o texto bíblico em Mateus 26:41 que diz “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Os brasileiros exigem apuração rigorosa dos fatos, incluindo a ligação do Ministro!


*Arruda Bastos é médico, professor universitário, radialista, membro da Sociedade Brasileira de médicos Escritores, ex-secretário da Saúde do Ceará e componente do Movimento Médicos pela Democracia.

FONTE: site Portal Vermelho (www.vermelho.org.br/noticia/294579-1)

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